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“Os educadores devem ocupar os espaços da internet onde estão os estudantes, e para isso precisam de formação”

05/11/24

Confira entrevista com o professor Yuri Norberto, que participará do nosso webinário sobre desinformação e saúde mental na internet

Nada menos do que nove entre cada dez brasileiros já acreditaram em uma notícia falsa. Esse dado, revelado em uma pesquisa do Instituto Locomotiva, evidencia como a relação das pessoas com a informação é um dos principais desafios da atualidade. 

No contexto escolar, a educação midiática é uma ferramenta fundamental para contornar essa realidade. Foi com essa crença que o educador Yuri Norberto elaborou o Observatório Internacional da Notícia, projeto implementado no Centro de Excelência Atheneu Sergipense, em Aracaju (SE), onde dá aulas de Sociologia e Filosofia.

Em vigor desde 2023, a iniciativa tem a intenção de combater a disseminação de informações falsas por meio de três etapas: na primeira, é realizada a cartografia social dos estudantes, que consiste na aplicação de questionário para conhecer melhor como essa problemática afeta a vida deles; na segunda, os alunos são divididos em grupos e cada um deles fica responsável por monitorar uma rede social. A terceira é uma fase operacional, na qual é feita a catalogação de dados e quando os alunos têm aulas sobre como fazer checagem de informação. Ao final do processo, é eleita a notícia falsa mais prejudicial que foi publicada em cada uma das plataformas analisadas.

Ao abordar temas da contemporaneidade, o projeto permite a interdisciplinaridade, além de despertar o senso crítico dos alunos e torná-los protagonistas do processo de aprendizagem, ao dar autonomia para escolher como lidam com as informações. “Ao participar do projeto, os estudantes fazem muito rápido a mudança entre aquele ser que não fala sobre o mundo, não escolhe, não verbaliza e não se responsabiliza, para alguém que entende que também é responsável por essa sociedade que está construindo, em especial pelo que posta nas redes sociais”, observa o educador.

Webinário “O que todo professor precisa saber sobre segurança na internet”

Yuri Norberto é um dos convidados do webinário “O que todo professor precisa saber sobre segurança na internet”, que acontecerá no dia 13/11 (quarta-feira), às 19h, com transmissão ao vivo no canal de YouTube da Fundação Telefônica Vivo. O evento discutirá temas como leitura crítica de informações e checagem de fatos no ambiente digital, além da importância de estabelecer – tanto estudantes quanto professores – uma relação saudável com a tecnologia.

O webinário é uma ação de lançamento do  curso “Bem-estar, saúde mental e desinformação on-line: aprofundando habilidades de cidadania digital”, que capacita educadores a trabalhar, de forma prática, temas fundamentais como cidadania digital, saúde mental e combate à desinformação. O evento contará ainda com a participação de Guilherme Alves, gerente de projetos na Safernet Brasil, e de Fábio Meirelles, diretor do Departamento de Direitos na Rede e Educação Midiática da Secretaria de Comunicação Social do governo federal.

Reconhecimento público

Yuri também está à frente de iniciativas com o Atheneu ONU, que propicia o encontro dos estudantes com diversas lideranças políticas e sociais de Sergipe, e o Laboratório de Educação e Aprendizagem Digital (LEAD), onde os jovens produzem conteúdos “para todas as matérias, em todos os formatos”, segundo o professor. 

Inclusive, essa abordagem inovadora diante de desafios da atualidade rendeu a Yuri a Medalha da Ordem do Mérito Parlamentar da Assembleia Legislativa de Sergipe. Confira a seguir a entrevista com o educador:

1) O Observatório Internacional da Notícia trouxe um olhar muito importante para a educação midiática. Como esse projeto transformou a sua prática pedagógica? 

O principal aprendizado que eu tive com o Observa [apelido do projeto] é a ideia de que a aprendizagem precisa ter significado, e esse significado vem quando você traz para a sala de aula o cotidiano do estudante. É entender que aquele conhecimento que a gente dá precisa fazer sentido para a realidade que ele está enfrentando agora, de contextualizar o que eles estão passando, aproveitando o cotidiano do aluno para a partir daí acessar o conhecimento.

2) E como você enxerga o impacto nos estudantes: qual a diferença entre como entram e como saem do projeto? Quais os principais aprendizados e desafios desse processo?

Eu destaco com certeza o amadurecimento que eles têm, a ideia de responsabilização. Eles fazem muito rápido essa mudança entre aquele ser que não fala sobre o mundo, não escolhe, não verbaliza e não se responsabiliza, para alguém que entende que também é responsável por essa sociedade que está construindo, em especial pelo que posta nas redes sociais, e consequentemente você amadurece.

A partir do Observa, eles conseguem perceber melhor a conexão entre o cotidiano e a ação deles – e até mesmo a não-ação também, quando observam alguma coisa errada na internet e não fazem nada. Outro fato marcante nesse processo é o quanto eles se sentem responsáveis por tomar uma decisão, por serem mais ativos com relação ao que está acontecendo. Eles enxergam perigo e começam a se indignar. “Poxa, mas a gente não vai fazer nada? Vai ficar aqui parado?”, reclamam.

3) Entre seus projetos está também o Laboratório de Educação e Aprendizagem Digital. O tema do uso excessivo da internet e de tecnologias digitais tem ganhado cada vez mais espaço no debate sobre educação, inclusive com a proibição do uso do celular por algumas escolas. De quais formas essa iniciativa trabalha a questão da saúde mental no meio digital e do uso seguro da internet?


Uma coisa que trabalho muito com os estudantes é a ideia da autoavaliação. Como é que enxergam o impacto que o celular está tendo no seu cotidiano? De que forma o uso desse dispositivo influencia nas suas opiniões e em outros aspectos da vida? Eles precisam entender o quanto isso afeta a saúde mental também. Nessa autoavaliação são relatados momentos em que ficam tristes, como quando seus posts tem poucas visualizações, poucas curtidas, ou quando postam uma coisa e as pessoas entendem outra, ou quando fazem algum comentário sobre um pedaço do seu corpo, uma silhueta, um tipo de roupa que eu uso ou um tipo de música que escutam…

A gente vai conduzindo esse papo para eles entenderem como é que isso não é inofensivo, como isso afeta também a saúde mental. E assim como a gente aprende a comer da maneira correta, com um prato balanceado entre nutrientes, eu tenho que espelhar isso para a minha rotina nas redes sociais e para a forma como lido com a minha saúde mental. O que te faria bem e o que não, em termos de saúde mental? Então, buscamos compreender qual seria uma dieta da internet, para que eles entendam que, assim como a gente cuida do corpo físico, também precisamos cuidar da saúde mental.

4) Para além do corpo estudantil, é preciso ter um olhar cuidadoso para os próprios educadores em relação ao uso saudável da internet. No momento atual, como você enxerga a importância disso?

Para os docentes, o aprendizado que tento passar também para os meus colegas – ou para todos os espaços que eu sou convidado para falar como professor – é o quanto a gente precisa ter um ponto de atenção para nossa formação, em se atualizar diante das novas ferramentas, habilidades e percepções que a gente precisa levar para a sala de aula. É o tipo de coisa que a gente não aprende na universidade.

Essa geração está sendo formada e informada pela internet, e o papel do professor na escola é fazer a mediação do conhecimento. Antigamente, porém, o foco das escolas era apenas na transmissão do conhecimento. Com o advento da internet, o conhecimento passa a ser transmitido por esse meio, e aí eu entendo que é um espaço que o professor precisa ocupar. 

Mas a gente não teve formação para isso, porque não é só ocupar, a gente precisa saber como ocupar. Como é que você faz essa mediação com estudantes na internet? É preciso lembrar que esse é um território onde tudo é muito abundante, tudo é muito excessivo e as pessoas rapidamente podem chegar em um exagero na internet. E, se tratando de adolescentes, falta maturidade. Então precisa ter muita técnica, muita intencionalidade, muita racionalidade para poder fazer isso. 

5) Seus projetos pedagógicos têm um viés muito forte de estimular o protagonismo estudantil. Para você, qual deve ser o papel da escola na relação entre os estudantes e os meios tecnológicos e digitais?

Entendo o protagonismo como o uso consciente das vontades e dos desejos que o estudante tem. Não é fazer o que você quer, na hora que você quer; é primeiro você ter auto consciência de entender o que você quer, por que você quer e por que aquilo é importante. Ao fazer isso, você também assume responsabilidades, então você precisa conscientemente entender e deliberar sobre aquilo que vai fazer. Eu não acho que a posição do aluno na transmissão do conhecimento tem que ser passiva, ele precisa participar e também construir o seu processo de conhecimento, precisa ser também protagonista, porque cada um vai aprender de um jeito diferente.

E aí é que vem a cereja do bolo para mim: que esse protagonismo desemboque em uma atitude consciente, que ele possa intervir na sociedade em que está inserido. Aí é que eu acho que está a beleza da educação e do que a gente faz, que a gente forma aquele estudante para que ele seja ativo no seu processo de aprendizagem, mas que ao fazer isso ele também possa ser ativo no processo de construção da sociedade em que está vivendo.

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